A indústria jornalística dificulta a unidade latino-americana |
"O nosso sonho é que os povos da América se entusiasmem e se unam" José Martí |
Por Alexandre Barbosa |
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Essa ofensiva da nações européias e norte-americanas influenciou as elites autóctones que promoveram esforços de toda natureza para que cada país latino-americano se tornasse uma cópia dos países centrais do capitalismo. Martí, no artigo “Agrupamento dos povos da América”, de 1883, dizia: Como meninas em estação de amor voltam os olhos ansiosos pelo ar azul, em busca de galhardo noivo, assim vivemos suspensos de toda idéia e grandeza alheias, quer tragam o selo da França ou da América do Norte; e ao plantar astutamente, em solo de certo Estado e de certa história, idéias nascidas em outro Estado e em outra história, perdemos as forças de que necessitamos para apresentar-nos ao mundo – que nos vê carentes de amor e como entre nuvens – compactos no espírito e unidos na marcha, oferecendo à terra o espetáculo jamais visto de uma família de povos que avança alegremente a passos iguais, em um continente livre. Lemos Homero: acaso foi mais pitoresca, mais ingênua, mais heróica a formação dos povos gregos que a de nossos povos americanos? Martí critica nesse texto a influência do pensamento liberal importado da Europa e dos EUA. Ao ironizar o deslumbre pela história europeia, simbolizada na citação aos gregos, ele reflete nossa fraqueza latino-americana de nos olhar como uma só nação, de nos apoiarmos mutuamente. O século XXI caminha para sua segunda década e a batalha de Martí, apesar de grandes avanços, continua com inimigos. Os avanços são vistos na chegada ao poder de governos progressistas que – em maior ou menor grau – defendem a solidariedade política ou econômica das nações latino-americanas. Das várias observações que a esquerda faz ao governo Lula, o maior elogio pode ser feito à política externa. Desde o início, ainda em 2003, o governo Lula já demonstrava uma maior aproximação com as nações do “sul”. Por mais que algumas práticas econômicas se aproximassem dos modelos neoliberais anteriores, a política externa que defendia a auto-determinação, o desenvolvimento econômico e a integração da América Latina eram os pontos alto do governo. Em junho de 1884, Martí já defendia essa união no artigo “Livros de hispano-americanos e rápidas considerações”: “Povo, e não povos, dizemos de propósito, por não nos parecer que há mais de um, do Bravo à Patagônia. Uma há de ser, visto que o é, a América, mesmo que não o quisesse; e os irmãos que lutam juntos ao final em uma colossal nação espiritual, hão de amar-se depois”. No entanto, a indústria jornalística, principalmente a brasileira, rejeita ferozmente essas tentativas de integração, o que fica mais evidente na cobertura da semana de 22 a 26 de fevereiro de 2010, que marca a cúpula da América Latina e Caribe em Cancún e a última viagem oficial de Lula pelo continente. Um observador desatento diria que a indústria jornalística dá grande atenção ao tema, pois por dias seguidos, os jornais estão dando mais do que notas de pé página ao tema e, em alguns caso, dão até a capa. Porém, como já dito em outros artigos e como foi defendido na dissertação de mestrado “A solidão da América Latina na grande imprensa brasileira”, a quantidade de material publicado não significa que a América Latina ocupe um lugar de destaque. Pelo contrário, a região continua a ser tratada pela imprensa como um quintal, com governos despreparados ou autoritários. E como observou Martí, ainda no século XIX, a referência continua sendo os EUA e a Europa como modelos. “Andamos tão apaixonados por povos que têm pouca liga e nenhum parentesco como os nossos”. No editorial de 25/02/2010, o Estado de S.Paulo (reproduzido abaixo) mostra o que Martí já condenava. O editorial se reproduz também nas abordagens das coberturas durante a semana: críticas à posição brasileira de apoio à reivindicação da Argentina na questão das ilhas Malvinas, à visita de Lula a Fidel Castro, por exemplo. Em parte essa ofensiva da indústria jornalística passa, em parte, para colar a imagem de Lula a um “radical dinossauro de esquerda”, anti-democrático e estatizante, com objetivo de prejudicar seu apoio à sucessora escolhida para a eleição presidencial. Mas o editorial abaixo mostra os perigos que Martí já alertava: “Vemos colossais perigos (...). É necessário ir aproximando o que há de acabar por estar junto. Se não, crescerão ódios; não haverá defesa adequada frente aos colossais perigos, vivendo-se em perpétua e infame batalha entre irmãos”. Ainda bem que nem tudo está perdido. Além deste site, há outros veículos que lutam para reforçar a solidariedade latino-americana. Mesmo que sem o mesmo poder de penetração na audiência, estes veículos lutam como vírus. Como exemplos, a Agência Carta Maior, o jornal Brasil de Fato, e Rede Brasil Atual. Veja alguns trechos: Agência Carta Maior: A crise nas Malvinas é muito mais do que um problema argentino. Trata-se de um resquício do império decadente na América Latina, e para nós, brasileiros, de um encrave colonial no espaço do Mercosul. Acertou a Unasul e os 32 países da Cúpula da Unidade da América Latina e do Caribe (Calc), que inclui membros da Commonwealth, em respaldar as reivindicações de nosso país irmão. - Larissa Ramina, Doutora em Direito Internacional pela USP, Professora da UniBrasil. Rede Brasil Atual - Segundo Lula, a falta de representatividade da ONU se reflete no embate entre Argentina e Reino Unido por causa das Ilhas Malvinas. “Qual é a explicação geográfica, política e econômica para a Inglaterra estar nas Malvinas. Qual é a explicação para a Organização das Nações Unidas não ter ainda tomado uma decisão e dizer que não é possível que a Argentina não seja dona das Malvinas. Será que é o fato de a Inglaterra participar como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, e que eles podem tudo e os outros não podem nada”, questionou. As citações de José Martí foram retiradas da obra RODRIGUEZ, Pedro Pablo. Martí e as duas Américas. São Paulo: Expressão Popular, 2006. Leia mais Reprodução de “A retórica da integração” – O Estado de S.Paulo, página 3, 25/02/2010. Ele e outros 31 chefes de Estado e governo, reunidos durante dois dias em Cancún para a Cúpula da América Latina e Caribe (Calc), assinaram a certidão de nascimento da entidade que o venezuelano queria que se chamasse Organização dos Estados Latino-Americanos, para distinguí-la da OEA controlada pelo "império", enquanto o mexicano, o pai do rebento, preferia União dos Estados Latino-Americanos e do Caribe. Por sugestão brasileira, o primeiro termo foi substituído pelo mais modesto "Comunidade", do que resultou a sigla Celac. Eis outra contribuição para o prolífico abecedário político regional que designa iniciativas cuja efetividade varia na razão inversa das fanfarronadas com que são anunciadas. Em nenhuma passagem das enxundiosas 88 páginas que atestam a vinda ao mundo da Celac, fruto do enlace entre a Calc e o Grupo do Rio (o mecanismo de consultas com 18 países-membros criado em 1986, também sem a participação dos Estados Unidos), se encontra uma descrição do que será a sua estrutura e o seu funcionamento. Esses detalhes, bem como o estatuto e a sede comunitária, serão decididos na próxima reunião da Calc, marcada para julho de 2011, em Caracas. Se Lula quiser, a presidência do organismo ainda informe será sua. Chávez já propôs o seu nome e Calderón o saudou como "o líder indiscutível da nossa região". O brasileiro não quis se despedir de seus pares, lembrando que irá se encontrar com eles "em muitos fóruns" até 31 de dezembro - um involuntário lembrete da profusão de oportunidades para se louvarem uns aos outros, ou para trocarem desaforos, como tem ocorrido ultimamente, e mostrar a língua para os americanos. A isso já se prestam a Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa), a Aliança Bolivariana (Alba) de Chávez e, em alguma medida, a União de Nações Sul-Americanas (Unasul). A recém-nascida OEA do B, como inevitavelmente vem sendo chamada, barra a entrada dos Estados Unidos e do Canadá e abre as portas a Cuba, excluída da OEA original. Essa parece a sua única razão de ser, além, naturalmente, de servir de palco para canções diplomáticas de protesto e desfile de guayaberas - uniforme oficial da nova entidade. Em Cancún, o momento alto do show foi a condenação unânime da prospecção de petróleo, por uma empresa britânica, nas Malvinas. No embalo, Lula ergueu a voz contra as Nações Unidas (ONU) por não apoiar as pretensões argentinas sobre as ilhas que reivindica desde o século 19. Segundo ele, a ONU privilegia o Reino Unido porque tem assento permanente no Conselho de Segurança - a ambição maior da política externa lulista. Apresentadas como justificativas para o surgimento da Celac, a afirmação de soberania e a busca de integração dos seus 33 heterogêneos membros (os 32 de Cancún e Honduras, quando for reabilitada) representam o triunfo da retórica sobre as realidades regionais. Ignoram conflitos como os da Venezuela com a Colômbia - Chávez e Álvaro Uribe tornaram a trocar insultos na cúpula - e os atritos da Argentina com o Uruguai, para citar apenas os mais notórios. "Mal estamos conseguindo implementar a Unasul, restrita à América do Sul, uma unidade geopolítica clara", observa o cientista político Ricardo Sennes. "Imagine uma instituição latino-americana. Qual seria a sua identidade?" A Celac espelha a desorientação dos governos da área em relação ao seu problemático entorno e à falta de rumos de suas políticas externas, travadas pela ilusão de que esnobar os Estados Unidos fará pela integração latino-americana o que 200 anos de história não fizeram. Embora não seja criatura brasileira, a Celac se encaixa no modelo lulista de diplomacia, com a sua obsessão por fustigar os "brancos de olhos azuis".
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