CEM ANOS DE SOLIDÃO: clique nos tópicos para ler a análise
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| Por Íris Kussler Sávio e Kelly Martins Peres Edição: Alexandre Barbosa clique aqui para entrar em contato |
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| INTRODUÇÃO | |||||
Além da obra ser uma metáfora do isolamento e da esperança da América Latina, traduz-se ao longo da narrativa e, mais especificamente, na passagem “o coronel Aureliano Buendía promoveu 32 revoluções armadas e perdeu todas”, uma referência à impotência dos Homens. A narrativa em questão desse genial autor mescla revoluções, fantasmas, incesto, corrupção, loucura e inúmeros elementos maravilhosos (como a personagem Remédios, a Bela, que viveu uma experiência transcendental da qual nunca mais voltou) com uma naturalidade que a torna quase verossímel. Tamanha é a quantidade de ramificações que dão força à sensação de repetição e de catástrofe com que a narrativa está comprometida e que fluem a partir da história central que são encontradas árvores genealógicas dos Buendía para que os leitores não se percam nessa fantástica saga. Dentre os inúmeros elementos fantásticos contidos na obra em questão, a análise a seguir enfatiza o aspecto temporal da narrativa. |
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| SOBRE CEM ANOS DE SOLIDÃO | |||||
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| MITO DO ETERNO RETORNO | |||||
Todas as gerações da família Buendía foram acompanhadas pela personagem Úrsula, que viveu em torno de cento e cinqüenta anos. Essa centenária personagem elucida que as características físicas e psicológicas de sua família estavam associadas aos nomes repetidos: todos os Josés Arcádios eram impulsivos, extrovertidos e trabalhadores, enquanto que os Aurelianos eram pacatos, estudiosos e fechados em seu mundo interior. As sucessivas gerações de homens e mulheres batizadas homonimamente reforçam a sensação de repetição característica do tempo cíclico. Eliade nos diz que as civilizações arcaicas percebem o tempo como heterogêneo, dividindo-o em linear (profano) e cíclico (sagrado). Há duas concepções para tempo cíclico: o infinito e o limitado. Os pergaminhos de Melquíades (cigano de imensa sabedoria e muito próximo de José Arcádio Buendía) contendo a saga da família Buendía estão escritos em tempo linear, com passado-presente-futuro. Porém a narração, a trama dos fatos, ocorre em tempo cíclico limitado, com as sucessivas repetições dos destinos das seis gerações e a extinção da estirpe ao final do ciclo de cem anos de solidão aos quais foram condenados. Os pergaminhos foram escritos em tempo linear para fazer entender a passagem do tempo (ou seja, que inevitavelmente está sempre em curso). Esse artifício faz o tempo “correr” durante um determinado período (um ano, por exemplo), mas fantasticamente acaba retornando sempre. Os manuscritos de Melquíades encontram-se grafados em sânscrito, antiga língua da família indo-européia, clássica da Índia e do Hinduísmo, citada como língua materna do cigano, declarando sua origem indiana. O fato de estar escrito em tal língua é usado na narrativa para ressaltar seu ritmo religioso, sagrado, sublinhando a concepção unidimensional do tempo para a humanidade primitiva, que se protege contra o terror da História, tendo uma condição de impotência diante de dados históricos, uma forma de existência aflitiva. |
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| MITO COSMOGÔNICO | |||||
Dentro desse conceito podemos citar as chuvas que perduram por mais de quatro anos (cosmogonia aquática, como o dilúvio bíblico), simbolizando a “purificação” após o caos, o início de um novo ciclo, uma regeneração após o massacre de mais de três mil pessoas na estação ferroviária, massacre esse que simbolizou o caos. Encontramos outros exemplos de caos na narrativa, como as ações corrosivas de insetos, aparições de almas, orgias sexuais e etc. Ao passo que o mito cosmogônico simboliza o início de um novo ciclo, esse tem seu fim marcado pelo caos, constituindo assim uma rotação cíclica dos estágios do tempo, ficando estabelecida a relação COSMOS x CAOS. O tempo mítico da narrativa “Cem Anos de Solidão” tem uma característica peculiar quanto à velocidade. A velocidade da narrativa, como afirma Genette [FIGURES III], decorre da interação de fatores de natureza diversa: o tempo da história e a componente discursiva que a modeliza numa sintagmática narrativa. A peculiaridade da obra em questão deve-se ao caráter pluridimensional do tempo: se passa em três velocidades diferentes. O que demorou cem anos (transcendentes ao tempo concreto) para acontecer na cidade de Macondo, na casa dos Buendía foi concentrado numa surreal coexistência de episódios num mesmo instante, como o narrador elucida quando Aureliano Babilônia, o último vivo da estirpe, decifra os pergaminhos escritos pelo cigano Melquíades. Não é a toa que o segundo nome do último Aureliano é Babilônia: vem do grego Babel e significa “confusão de línguas”, tendo sido ele o único a conseguir decifrar os pergaminhos grafados em sânscrito. Já na casa dos Buendía os episódios coexistem, como está explícito na epígrafe: “o primeiro da estirpe está amarrado à uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas”, tudo escrito em “tempo presente”. Essa coexistência é encontrada na casa, no centro, por dali se originar o clã dos Buendía, o objeto da trama. O tempo mágico se apresenta nessas ações que o homem considera como mais importantes, únicas e sagradas, o que poderíamos chamar de rituais. Há ainda o quarto de Melquíades na casa dos Buendía, que apresenta uma terceira característica temporal: nele o tempo é suspenso, simplesmente atemporal. Isso ocorre porque sua figura é altamente mítica, e decisiva na narrativa. É segundo suas previsões que tudo ocorre, nos seus pergaminhos é que está a totalidade do fenômeno COSMOS x CAOS. |
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| CONCLUSÃO | |||||
Até mesmo o nome “José” é uma referência ao patriarcado, considerando que José é, na narrativa Bíblica, o marido de Maria e pai de criação de Jesus Cristo. Além disso, é a figura masculina que ilustra o início e o fim da linhagem, quando Aureliano Babilônia encontra na epígrafe, já citada nessa análise, que “o primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore (José Arcádio Buendía) e o último está sendo comido pelas formigas (filho de Aureliano Babilônia)”. Cem Anos de Solidão nos remete ao labirinto do Minotauro (onde nasceu o MITO DO ETERNO RETORNO). É como se a família Buendía estivesse presa numa fortaleza, arquitetada por Melquíades, num labirinto de espelhos impossível de escapar, onde todos os caminhos levam ao centro. Cada membro da família tem traçado seu destino por um caminho, saindo de um mesmo princípio e chegando a um mesmo fim, que é o quarto de Melquíades (o centro ), onde se encontram os pergaminhos que contém encerrados em si o início e o fim de tudo. |
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| BIBLIOGRAFIA | |||||
ELIADE, Mircea. O Mito do Eterno Retorno. Lisboa: Edições 70,1985. ELIADE, Mircea. Debates: Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva,1972. SOUSA, Eudoro de. História e Mito. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981. TODOROV, Tzvetan. Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Editora Se você gostou deste texto, leia também:
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